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Yves. Viciado em cafeína e estimulantes passa as madrugadas em claro e as manhãs na cama. Possível jornalista, publicitário ou filósofo decidirá ao longo do caminho qual dessas opções o fará milionário. Refere a si próprio na terceira pessoa do singular, o que pode classificar alguma demência. "Leio, reclamo e escrevo".

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  • Edu: Qualquer elogio é pouco pra Avatar. Assisti em 3D e realmente é tudo isso que você disse. Épico.
  • Tamires: Sei o quando é difícil você não fazer críticas severas a alguma coisa. Então, UAU! Preciso ver esse filme!

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19

julho

Carta aberta aos Agroboys

Em "Crítica" | Tags: , , ,

Sejamos sinceros, você é uma pessoa relativamente estudada, segundo grau completo e cursando faculdade de veterinária, zootecnia ou agronomia, com condições financeiras suficientes para ter uma vida tranqüila e confortável. Respeito que se orgulhe das suas raízes e queira contar para todos a história de como seus progenitores se tornaram grandes produtores agrícolas ou exportadores de gado. Eu respeito tudo isso, sinceramente. O que eu não entendo é o por quê de você usar chapéu, botina, fivela e camisa xadrez de manga longa e botões. Você se orgulha de dizer que esse é o seu visual “da noite”, porque no dia-a-dia você adota um estilo mais casual, com camisa manga curta listrada e boné “Nelore”. Sabe quem usa roupas de caubói a noite? Bandas cover do Village People e performistas do Clube das Mulheres, ninguém mais.

Você se gaba ao dizer que é “simprão”, não entende “dessas modernidades” e gosta de estar em contato com seu “eu rural”. No bolso você carrega o celular mais caro da loja – e apostaria que foram exatamente essas as suas palavras quando o comprou -, passa os dias dormindo e se recuperando de ressaca. Seus avós devem estar sentados na arquibancada do grande rodeio dos céus, desapontados ao te ver distorcer os tradicionais bons costumes do homem do campo. Você sequer vai para a fazenda se não for para receber as cabeças de gado que seu tio te mandou do interior de Minas Gerais como presente de aniversário ou para encher a cara de cerveja com seus reflexos que chama de “amigos”. Sim, vocês são todos iguais.

Mas não, “aô” não é cumprimento, tampouco palavra. Falar “ocê” não te faz peão, e nem adianta falar mais alto, você continua sendo um rapaz da cidade que, por ventura, tem como fonte de renda um pai envolvido com agronegócios. Eu sei que essa é uma descrição longa e que você não vai conseguir memorizar, mas aceite o fato de que você não é tão chucro quanto acha que é.

E que músicas são essas que você ouve? É fácil saber que a música é ruim quando quem toca diz que ela é “mais ou menos assim”; nem eles querem admitir que esse é o resultado final. E não venha me dizer que esse é o “som da terra”, porque não é. Moda de viola é som da terra, esse “country” sobre como você foi traído e vai beber para esquecer não tem nada de regional. A única coisa que me irrita mais que você são as fêmeas da sua espécie. Uma mulher que, além de fazer tudo o que você faz, canta feliz e dança com uma lata de cerveja na mão sobre como as mulheres são vadias e interesseiras não deve entender a música que está dizendo. Se entende, o agravante é ainda maior.

É por tudo isso que acredito que você deveria fazer um seminário com os esquimós. Na pior das hipóteses você congela e morre, na melhor, você aprende a se comportar como membro da sociedade em que vive. Por que os esquimós? Porque esses sim se orgulham das suas tradições: o lugar em que eles vivem é tão frio que a casa é feita de gelo, mas mesmo assim eles não trocam a terra – ou a neve – natal e, quando vão à cidade, se vestem de acordo com o ambiente; ou você já viu alguém na rua e disse “aquele é descendente de esquimó”? Eles são discretos.

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